{"id":4293,"date":"2011-08-04T17:31:03","date_gmt":"2011-08-04T19:31:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.26notas.com.br\/blog\/\/?p=4293"},"modified":"2011-08-04T17:31:03","modified_gmt":"2011-08-04T19:31:03","slug":"vale-a-visita-a-vida-imobiliaria-cora-ronai","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.26notas.com.br\/blog\/?p=4293","title":{"rendered":"Vale a visita: A vida imobili\u00e1ria &#8211; Cora R\u00f3nai"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Cora R\u00f3nai<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A vida imobili\u00e1ria<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/www.26notas.com.br\/blog\/\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/A_vida_imobili\u00e1ria.bmp\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-4294 aligncenter\" title=\"A_vida_imobili\u00e1ria\" src=\"https:\/\/www.26notas.com.br\/blog\/\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/A_vida_imobili\u00e1ria.bmp\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"300\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O telefone toca na hora do jantar. \u00c9 um corretor querendo saber se estou interessada em vender meu apartamento. Tem sido assim nos \u00faltimos tempos: volta e meia recebo liga\u00e7\u00f5es de corretores. Tenho pena do rapaz, que deve estar colado ao aparelho desde cedo, ligando para todo mundo nesses tempos de mercado maluco; mas n\u00e3o, n\u00e3o tenho a menor vontade de sair de onde estou, muito obrigada. Na verdade, considerando os atuais pre\u00e7os dos im\u00f3veis cariocas, eu nem poderia estar aqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sou um caso cl\u00e1ssico de antiguidade no posto: ao longo do tempo, acompanhei a mudan\u00e7a de guarda no pr\u00e9dio, constru\u00eddo para funcion\u00e1rios p\u00fablicos e por eles habitado, at\u00e9 serem expulsos pelo IPTU e pelo condom\u00ednio cada vez mais altos, por ofertas irresist\u00edveis, pelo pr\u00f3prio tempo. Ainda temos um ou dois valentes remanescentes daquela \u00e9poca, mas cada novo morador que chega faz uma reforma mais caprichada do que as anteriores e traz um carro mais sofisticado para o estacionamento. Pois \u00e9: nem garagem propriamente dita o pr\u00e9dio tem, o que mostra a que ponto de desespero imobili\u00e1rio chegamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tenho certa inveja de quem gosta de se mudar: deve ser divertido trocar de vista e de arredores. Este, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 esporte para quem tem os milhares de livros que tenho, e que s\u00f3 eu sei arrumar de forma a encontrar o que preciso. Al\u00e9m disso, sou uma compradora chata. Para mim n\u00e3o bastam sol da manh\u00e3, pr\u00e9dio bem conservado, vizinhan\u00e7a calma; preciso tamb\u00e9m que o apartamento tenha boas vibra\u00e7\u00f5es, coisa dif\u00edcil de ver pelo Zap e de explicar aos corretores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando me mudei do Bairro Peixoto para a Lagoa, l\u00e1 se v\u00e3o muitas luas, vi nada mais nada menos do que 95 apartamentos, nos mais diversos bairros. Foi uma mudan\u00e7a for\u00e7ada: o pr\u00e9dio onde passei minha inf\u00e2ncia e juventude estava condenado pela prefeitura e, quando finalmente conseguimos vend\u00ea-lo, tinha uma diferen\u00e7a de60 cent\u00edmetrosentre a frente e os fundos. Se soltassemos uma bola de gude na sala, ela ia rolando sozinha, toda serelepe, at\u00e9 o quarto dos meus pais. As visitas sempre se impressionavam com isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No mesmo apartamento, antes de n\u00f3s, havia morado uma certa fam\u00edlia Motta, que tinha um filho chamado Nelson. Pois \u00e9, aquele mesmo, que hoje escreve na p\u00e1gina de opini\u00e3o, e que, com tanta freq\u00fc\u00eancia, \u00e9 a tinturaria da minha alma. O mundo \u00e9 um ovo, n\u00e3o \u00e9 mesmo? E digo mais: um ovo de codorna!Gilberto Gil morouno primeiro andar, e l\u00e1 nasceu a minha amiga Preta. E, anos depois, olhando pela janela, passei a ter vista para o Xex\u00e9o, que morava quase em frente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas esta n\u00e3o \u00e9 a cr\u00f4nica daquele pequeno pr\u00e9dio assassinado. \u00c9, antes, da dificuldade que foi achar substituto para ele. Eu precisava encontrar o imposs\u00edvel: um apartamento que n\u00e3o me desse sensa\u00e7\u00e3o de perda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estamos falando de uma \u00e9poca pr\u00e9-internet, em que n\u00e3o havia nem \u00e1lbum de foto nas corretoras. Era preciso ver os apartamentos um a um, mesmo aqueles que descartar\u00edamos por foto. Uma das etapas fundamentais na busca de um im\u00f3vel era aprender a decifrar o c\u00f3digo dos classificados: \u201cindevass\u00e1vel\u201d, por exemplo, significava vista para uma empena cega; \u201csilencioso\u201d queria dizer fundos; \u201caconchegante\u201d, pequeno; \u201ctipo casa\u201d, primeiro andar; \u201cbom investimento\u201d, desastre total.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro que eu vi era \u201caconchegante\u201d. Para piorar, o \u201caconchego\u201d havia sido acentuado pela divis\u00e3o do (pouco) espa\u00e7o em saletas e quartinhos min\u00fasculos. Mas o apartamento tinha uma vista fenomenal para a Lagoa e um \u00f3timo astral. Depois vi de tudo, inclusive o \u00faltimo andar daquele predinho g\u00f3tico que fica na Avenida Copacabana, na altura da Pra\u00e7a do Lido. O ch\u00e3o era lindo,a divis\u00e3o interna generosae inteligente, com luz direta em todos os c\u00f4modos. Se n\u00e3o fosse pelo barulho da avenida, teria sido uma op\u00e7\u00e3o, porque, apesar do visual bizarro do pr\u00e9dio, a energia do apartamento era muito positiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dos 95 apartamentos que percorri, uns 90 eram invi\u00e1veis: escuros, mal localizados, mal projetados, com quartos de empregada de tamanho obsceno. Dizem que o Brasil tem os melhores arquitetos do mundo mas, pelo visto, s\u00f3 os piores constru\u00edam no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o ag\u00fcentava mais ver porcarias mal conservadas. Uma noite, sonhei com a vista do \u201caconchegante\u201d da Lagoa, e decidi que aquele era o meu apartamento. Tinha a metade do tamanho do que seria demolido no Bairro Peixoto, mas eu n\u00e3o corria risco de ficar infeliz vendo aquela vista todos os dias. De manh\u00e3 liguei para o corretor. Ele continuava \u00e0 venda. Explica-se: na \u00e9poca, a Lagoa era o lugar mais abandonado da Zona Sul. Sofria com mortandades regulares de peixes e com uma falta de seguran\u00e7a cr\u00f4nica. Era imposs\u00edvel passear \u00e0s suas margens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tempos depois, me mudei para o pr\u00e9dio ao lado, este em que moro at\u00e9 hoje. Pedi ao Z\u00e9, nosso fiel porteiro, que me avisasse quando houvesse unidade \u00e0 venda. Um dia, apareceu um apartamento perfeito, pronto para morar \u2013 mas carregado de m\u00e1s vibra\u00e7\u00f5es. Esperei um pouco mais. No fim, fiquei com um que tinha uma extravagante decora\u00e7\u00e3o etrusca, e que me consumiu muito dinheiro e energia em obras; mas que astral!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No dia em que fui assinar a escritura, os propriet\u00e1rios, de mudan\u00e7a para Petr\u00f3polis, estavam tristes:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8212; Temos tanta pena de vender este apartamento! Fomos muito felizes nele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como eles, tamb\u00e9m tenho sido muito feliz aqui. Os telefonemas dos corretores me deixam cheia de orgulho pela minha casinha, mas n\u00e3o, n\u00e3o mesmo, muito obrigada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>(O Globo, Segundo Caderno, 4.8.2011)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cora R\u00f3nai A vida imobili\u00e1ria O telefone toca na hora do jantar. \u00c9 um corretor querendo saber se estou interessada em vender meu apartamento. Tem sido assim nos \u00faltimos tempos: volta e meia recebo liga\u00e7\u00f5es de corretores. 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